Ela acordou cedo, olhou pela cortina branca de onde vinha o sol já caloroso, às 7h e avistou os galhos do pé de seriguela carregado de frutos maduros. Viu a grama verde molhada do orvalho da madrugada, mirou um vapor indefinível entre os tons claros, refletidos na ampla luz. Dormira nua e acordara seca do vinho da noite anterior. Caminhou até a cozinha, sentiu um leve torpor, abriu a geladeira, pegou água e bebeu na boca da garrafa quase meio litro de uma vez. “Agora sim, bom dia”, pensou. O celular estava descarregado, as roupas jogadas pelo quarto, os restos do jantar sobre a mesa e as lembranças eram boas. A cena parecia tê-la feito tocar na porta da liberdade ou seria na iniquidade?

Clara vestiu uma camiseta branca, colocou a calça e começou a pôr em ordem o pequeno apartamento. Tirou as louças da mesa, como se o trabalho mecânico a ajudasse a colocar a vida de volta à mesmice de tardes opacas. Estava sozinha em uma pousada na serra. Ele tinha chegado no fim da tarde, uma meia surpresa, já que não havia respondido a mensagem dela: “Venha, traga um vinho. Podemos beber, dançar e conversar”. E assim foi, conversaram sobre a cor dos olhos de cada um, instigaram-se até quase brigar sobre teimosias diversas e aquilo fazia parte do jogo de anos de admiração mutua e silenciosa. Como era difícil para eles, elogiar sem ter garantias de reciprocidade eterna. O rubor provocado pelo vinho fazia também brilhar os olhos e pesar a língua. Mutuamente, trocaram palavras de pura safadeza.

Decidiram dançar quando o álcool já não os permitia conversar sem temer o ridículo da quebra de sentido nas frases. Ela não dançava há tempos, ele o fazia muito bem e a conduzia para território seguro. Dançaram até não lembrar quais e quantas músicas já se havia passado. Depois disso Clara ficou nua, assim, num susto e sem que ele esperasse ou pedisse. Ela sorriu, deitou na cama, puxou o lençol para baixo do pescoço e por entre as pernas como fazia desde criança. Ele se perdeu no contexto, foi ao banheiro, lavou o rosto, tentou ficar sóbrio, se acalmar e voltou ao quarto, para tentar estar à altura das expectativas dela. Tudo fluiu como o vento de dezembro.

Na manhã seguinte acordou sozinha. A sede e a dor de cabeça não a deixavam rememorar os momentos com clareza, mas sentia-se totalmente obscena e vergonhosamente satisfeita.  Não assumia assim, descaradamente, mas sorriu ao se olhar no espelho. Queria a sorte de um amor não contrariado como aquele para toda a vida e também a brisa leve e calma daquela manhã. Presença e ausência na medida exata. Por que a vida não podia ser sempre assim? Descomplicada!

As cenas da noite anterior foram voltando em flashes e faziam-na sentir-se menos dona de si e mais inesperadamente dele. Esse não se pertencer soava absurdo, ela tinha decidido, ela tinha permitido e não deixaria o velho medo, enodoado de culpa e velhas amarras chegar. Enquanto arrumava os lençóis, puxou então da gaveta secreta as lembranças das mãos que tatearam todo o seu corpo detalhadamente e se aconchegaram entre suas pernas por longo tempo. Deitou na cama de volta e ficou a lembrar de si e dele a manhã inteira, rindo-se toda, sem carregar o celular, sem juntar as roupas ou pensar em realidades absolutas.

Quando o relógio mostrou meio dia, levantou vagarosa, fez café, ligou o computador e trabalhou inspirada o resto do dia com piedosa e reconfortante malícia e a certeza de que se permitiria viver tudo aquilo novamente, talvez no final do mês ou quem sabe, um pouco antes. E o sabor de poder escolher viver era raro e fabuloso. A expectativa era melhor que a experiência em si? Talvez. Fato é que agora tinha certeza: as energias reunidas em um orgasmo melhoram a criatividade notadamente.