Ela foi! Depois de passar em casa e tomar um banho rápido, entrou no carro cansada, após um longo dia de trabalho. Maquiou-se dirigindo como sempre, sentiu frio no estomago. Parou na rua, colocou música de coragem, seguiu em frente e tentou não pensar em nada. A respiração estava curta e rápida. Respirou fundo para desacelerar o coração. Prendeu o ar por três vezes antes de mandar a mensagem: estou aqui.

Ele entrou, com cheiro de lavanda e de banho recém tomado. Abraçaram-se e ali ficaram por um tempo que nunca se saberá. Os relógios pararam numa loucura nunca antes vista. O tempo queria ser cumplice e foi. Ela afastou-se e tocou seus lábios inferiores, como quem brinca com criança, ele fechou os olhos, ela pensou que seria o contrário, que ela fecharia os olhos primeiro. Segura e trêmula beijou com saudades, sem pressa nenhuma, respirando fundo pra sentir o que de mais íntimo se tem de outra pessoa: o ar que vem de dentro. Eles só tinham 30 minutos e já beijavam há pelo menos cinco deles. Decidiram então sem palavra nenhuma continuar a beijar e tocar mãos, cabelos, rosto, numa intimidade saudosa, porém nova, com cheiro da mais incrível novidade que enche a vida de motivação por longos e entediantes dias. Ela teria no que pensar por meses a fio. Mas entre o abrir e fechar de olhos, ela viu alguém do lado de fora. Afastou-se dele num susto: uma menina de aparentes 10 anos segurava uma bola vermelha em frente ao peito e olhava para o carro com cara de quem viu mil pecados. Olhos grandes a miravam e ele percebeu o desconforto quando olhou para trás. A menina era a filha mais nova dele. Tinha em um dos braços a bola vermelha e no outro uma sacola de supermercado com roupinhas sujas, vindas da casa da amiga onde deveria passar o final de semana, mas por algum motivo chegara no momento do beijo.

Os dois soltaram as mãos que tanto tempo tinha se desejado tocar e ele desceu do carro levando seu cheiro de lavanda sem dar muitas explicações, tocando nos ombros da menina e a levando para dentro de casa. Ela, Clara, ficara ali, dentro de um rio recém formado em sua mais profunda intimidade, perdida no seu próprio rio interrompido. Ligou o som no automático, com dedos suados, ainda com o cheiro da boca dele. A música dizia ‘estou com uma vontade danada de dormir bem cansado e de acordar do seu lado pra te dizer que eu te amo, eu te amo demais’. Ela sorriu e lembrou que ainda teria lembranças pra muitos dias e acelerou o carro, ouvia a letra da música para não deixar a culpa vencer todo o êxtase bom de minutos atrás. Queria salvar pelo menos as lembranças das línguas de tocando timidamente, mas principalmente o gosto e o cheiro da respiração.

Ele ligava no telefone silenciado e ela corria para casa. Queria ele dizer que estava tudo bem? Ela nunca saberia, porque antes de abrir o portão e se jogar na cama, por vício de uma vida toda de culpas, deixou mais um pouco de culpa invadi-la e adoecê-la quase que de imediato. E distribuiu um pouquinho da mesma culpa para ele também. ‘Como não se importou com a possibilidade da filha chegar? Como ousou estragar tudo? A menina os vira através do vidro semi-escuro?’. Olhou o celular com seis chamadas e sentiu decência. A culpa resgatou o restante de dignidade que ainda lhe decorava a alma de mulher ofendida. E decidiu ali mesmo, na cama, não mais se permitir sentir o sobe e desce de sentimentos, hora de amor fraternal, hora desejosos de um tanto que doía. Pra quê isso? De que lhe servia? Acomodada com o pouco que se permitia na vida, mandou a última mensagem antes da pseudolibertação: Não precisa mais me procurar.

Ele recebeu de imediato com profundo horror. Não era possível ela não ter sentido com todos os sentidos, que os minutos seguidos de beijos representavam um mar de outros minuciosos e raros prazeres, dados de presente a quem tem a sensibilidade de reconhecer e cultivar almas companheiras. Caiu em si. Deu dois passos para dentro de casa, voltou para tudo o que estava disposto a deixar e ali ficou, adoecido pelo orgulho ferido gravemente por aquela mensagem. Ela no bairro ao lado, levantou-se da cama, foi ao banheiro, retirou cuidadosamente a maquiagem do rosto, sentindo uma pena enorme por levar junto, no algodão, o que ficou dele. Passou o pente no cabelo liso e longo, lentamente, e chorou pelos três anos de sentimento contido. Chorou lembrando-se da coragem que a levou até a casa dele para terem a conversa que nunca tinham tido a coragem de ter, a conversa definitiva e tudo terminara num desastrado flagrante de uma menina e sua bola vermelha. Para Clara era a mão do destino a acusando de subverter princípios. Por isso, pela dignidade que ainda lhe restara, seguiria avante e inacessível. Fez todos os bloqueios possíveis e foi para a cama repassar cada detalhe do encontro: o beijo demorado, os dedos nos lábios, os olhos fechados de entrega, o cabelo molhado e tudo o que não aconteceu, mas poderia ter acontecido se a menina da bola vermelha não tivesse aparecido. Exausta, foi dormir e os dias seguiram normais. Acostumada a acalentar sentimentos, seguiu firme no propósito de não se permitir sentir mais nada, mas ele vinha sempre, uma ou duas vezes por semana, em sonhos, onde exerciam trabalho voluntário, riam um do outro e as vezes se amavam. Nesses dias, Clara acordava bem.

Eduardo tentou ligar outras vezes, sem sucesso. O ímpeto daquele momento tinha esmorecido em poucos dias, dissolvido na agradável, apesar de monótona, rotina familiar. Ele tinha uma esposa que falava muito, vivia rindo-se toda boa, não era má, só não a amava, não mais. Amava Clara e Clara se acovardara, estranhamente, sumira em todos os modos de comunicação, nem a seus e-mails respondia.

Alguns meses se passaram. Clara permanecia imersa na sua falsa moralidade. Preferia carregar o peso de viver de casos fortuitos com homens descartáveis e sim, para ela isso tinha um peso moral, a tirar de casa o pai daquela garota de 10 anos. Sim, ele continuaria sendo pai dela eternamente, mas aqueles olhos confusos de menina perdida a fizera mudar de propósitos. Uma resignação justa tomou conta do que ainda restava de coerente em ser Clara. Clara, a justa! Era assim que se via.

Um dia adoeceu, como todos nós adoeceremos, perdidamente. Uma bactéria fulgida, somente visível por potente microscópio se alojara em parte inacessível de sua cabeça e a levava lentamente da vida. Quando se deu conta, estava tomada pelo medo da morte que se aproximava. ‘Se ficar boa, juro que ligo pra ele.’ Era só o que pensava. No leito do hospital, pegou papel e caneta, escreveu um conto falando sobre o que sentia, passou perfume na folha e escreveu o nome dele em letras garrafais. Chamou uma amiga e disse: se eu for antes de você, entregue. A amiga de tudo sabia. Clara pensou em seus seis gatos, que estavam agitados em casa. Ela pediu água, biscoito e morreu calma, sem nem se despedir dos amigos ou familiares. Morreu fugazmente, morte assim, pluft. Como tantas outras. A amiga chorosa o procurou e entregou a folha: é de Clara. Ele empalideceu. Onde ela está? Morreu faz três dias. Ele abriu a folha amarela e leu: “Ela foi! Depois de passar em casa e tomar um banho rápido, entrou no carro cansada, após um longo dia de trabalho. Maquiou-se dirigindo como sempre, sentiu frio no estomago. Parou na rua, colocou música de coragem, seguiu em frente e tentou não pensar em nada…”.