O que é sucesso em meio a uma pandemia, quando tudo adquire novos significados? O que é pensar sobre o futuro, se o que importa é acordar bem a cada dia? É cada respirar aliviado?! O momento não é para rima. Minha mãe está com a Covid-19, logo ela, minha mãe. São leves os sintomas, mas não tem como não dar um stop na vida e refletir sobre passado, futuro e ficar atento ao presente, mais especificamente, a cada respirar de dona Luiza. Eu ligo duas vezes ao dia e só relaxo quando percebo que seu falar é o mesmo, sem indícios de cansaço na voz. O medo ronda todas casas, todas as consciências e nos une dessa forma desajeitada.

Mando mensagens para minha irmã mais velha: mamãe está realmente bem, certo? Vocês não estão me escondendo nada?  “Não mana, tá tudo bem. Continua brava como sempre. Ontem perguntei como tinha passado a noite, e ela me responde: dormindo, é claro, Cris! Então está tudo bem”. Só poderia mesmo ser geminiana para oscilar entre a amorosidade e a grosseria de forma tão volátil. Ando inconformada por estar longe. O verão da Polônia me deixa ainda mais instável, por ser tão imprevisível quanto minha mamá. Basta que se sinta levemente melhor, vai teimosamente arrumar a casa.

Juntando fatos diversos dos últimos meses, compreendi um pouco mais sobre aquela angustia tão ruim, aquela ansiedade fina a incomodar. Era saudade de mim. Falta de observar o concreto, os olhos dos outros em movimento. A cor dos olhos do meu filho, do meu marido. Saudade de intimidade com meus pensamentos fluídos, aqueles sem grandes objetivos ou desafios. Sem organogramas.

Puxando os fios do aqui e agora e o incomodo de estar longe de minha mãe, veio a epifania: eu sempre preciso sair do ninho para amadurecer. Perto dela, sou apenas uma filha. A grandeza de sua alma me protege de enfrentar a realidade. Foi longe de casa que amadureci, primeiramente na convivência com os outros, estudando, morando com estranhos. Compreendi sobre limites, testei o molde do meu caráter. As lições, dezenas de vezes repetidas por meu pai e minha mãe, em formato de ditos populares, figuram na memória afetiva até hoje, diante da vida que teima em acontecer à nossa revelia. “Diga-me com quem andas e te direi quem és”, “Mentira tem pernas curtas”, “Quem com fogo fere, com fogo será ferido”. Parecia uma caixinha de som cravada no meu ombro, a repetir a ladainha durante os tocos cotidianos. Bons tempos de faculdade em Manaus. A Manaus  “que não é pai, mais açoita”, disse algumas vezes dona Luiza, quando eu ligava para choramingar sobre o ônibus lotado, a chuva que não parava, o mofo que invadia meus armários, banheiro, sapateira. Uma cidade construída em meio à selva amazônica tem suas peculiaridades desafiadoras.

Voltei ao meu lar, Roraima, casei, formei família, trabalhei muito e depois de alguns anos, me exilei novamente, agora bem mais longe, no velho leste europeu. Quanto tempo passarei aqui? Meu companheiro nutre a ideia fixa de que vou acostumar  e não mais sonharei em voltar para Roraima, minha terra calorenta. Eu disse para ele que não sou filha de chocadeira (mais um dito popular dos bons, de minha mãe), tenho raízes. Estou mergulhada no sentimento de impotência e esperança, alternando preocupação e serenidade, pois acima de tudo aceito minha insignificância diante dessa peste. Cultivo discretamente, tal qual uma subversiva, dúvidas sobre Deus e seus planos para a humanidade. Bate o ceticismo racional e logo na sequência eu lembro dos detalhes: os muitos detalhes da natureza e do corpo humano provam Deus! A complexidade das estruturas naturais, recheadas de vida, me mostram o Deus de forma clara e objetiva. Me basta e preenche.

Nesses vazios momentâneos, sigo com as epifanias reveladoras de mim. Foram várias: além dessa última, sobre precisar me afastar do lar para amadurecer, veio a síntese do processo de aceitação identitária e do quanto o amadurecimento intelectual e político tardou para iniciar. Tenho lido sobre gênios que produziam o que lemos até hoje, com seus 35 anos. Eu tenho 37 e só agora os descobri, porém, às favas minha decepção, só o que tem importância é a saúde de minha mãe, meus irmãos, tias e meus anciões queridos, avô e avó, tão vulneráveis em sua lentidão e sabedoria.

O medo, que também é das despedidas, foi experimentado essa semana. Pessoa muito querida se foi. Não era familiar de sangue, mas era de coração. A conheci durante o período de mestrado. Estava, aliás, na defesa da minha dissertação. Tão bonita com sua luz natural, alegrando o ambiente! Brindamos com caxiri o meu 10. Vó Bernaldina, mestra dos saberes indígenas, contadora de histórias milenares. Entoava cantos poderosos na língua Makuxi, símbolo da demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Pessoa boa, sorridente, daquelas que emanam boa energia nesse mundo. Essa doença a levou, como levou outras muitas lideranças indígenas nos últimos dias.

Como não temer o desfecho disso tudo? Até que saia uma vacina, quanta vida ainda teremos em nós, vendo tantos partirem? Estaremos mais fortes e amadurecidos, expulsos que fomos da comodidade de nossos lares pseudoseguros? Uma transformação silenciosa se dá em cada self e não sabemos o quanto vai sobrar da humanidade que conhecemos e que se julgava tão poderosa, no topo da cadeia alimentar. Pois a cadeia ruiu, é hora de se metamorfosear e descobrir novos padrões do que chamávamos de sucesso.