Ana Luiza acordou cedinho com o sol ainda se espreguiçando por detrás dos buritizais. A luz daquela manhã tinha algo de especial. O pequeno coração da menina acelerou levemente como se soubesse que algo importante iria acontecer. Os guaribas já urravam com força, trepados em alguma árvore de mata próxima. Parecia mesmo é que a qualquer momento desceriam das árvores e invadiriam a fazenda em bando, devorando todos sem piedade. Ana afastou o pensamento medonho da cabeça e foi correndo para o jirau lavar o rosto, escovar os dentes e saiu andando rumo ao curral.

No retorno, acompanhava o tio que vinha com uma panela de leite de vaca ainda  morno nas mãos. Na cozinha, a avó assumia a panela e punha o leite para ferver. Ana Luiza sentou-se e esperou o café da manhã. Ao lado do leite, sobre uma das bocas do fogão a lenha, um panelão cheio de mugunzá. Os cheiros de café, leite e mingau se misturavam e ela gostava daquilo. Era cheiro de manhã, de avó Joaquina e férias na fazenda.

Depois do café da manhã a menina correu para o quarto dos avós, onde procurava o chiqueirador que ficava escondido atrás da porta. Sentia-se poderosa com aquela varinha de madeira, de onde pendia um longo fio feito de couro de boi ou vaca. Arrumara-se como de costume, mas prendeu os cabelos negros e finos num rabo de cavalo no alto da cabeça. Sentia-se bonita assim. Com seus nove anos, não pensava muito sobre ser criança ou adolescente, simplesmente era. Corria rápido, disputava corrida com os primos maiores, seu apelido era chumbinho. Tinha a pele morena, queimada do sol forte da linha do equador.

Depois do ritual pessoal, foi de rede em rede chamar os primos que ainda dormiam. Já estou pronta, só esperando, anunciava. Tinham combinado de ir brincar na ilha do carrapato. Eram uns 10 primos, entre meninos e meninas, tendo a mais velha 12 anos e o mais novo, sete ou seis. A ilha do carrapato ficava distante quase um quilômetro da sede da fazenda. Uma pequena porção de mata, rodeada pelo lavrado plano, formada por árvores altas e palmeiras diversas, abrigando todo tipo de animais: das vacas e pacas a carneiros que se abrigavam do sol forte.

Parte interessante da brincadeira era se afastar da casa, da proteção dos adultos e se lançar no lavrado sem fim. Ana Luiza e os outros sabiam do Chocalheiro. Os avós contavam para todos os netos sobre o bicho, assim que tinham idade suficiente para compreender. A entidade surgia do nada, fazendo barulhos de chocalhos atrás de quem andasse desavisado no campo. Ana Luiza tinha nas mãos o chiqueirador e ia propositalmente no rabo da fila indiana que cortava o lavrado, passava por dentro dos buritizais húmidos, com fios de água escorrendo pela relva verdinha. Olhava para o lado apenas virando os olhos, como se não quisesse ser percebida por ele, ou eles, que poderiam estar ali, espreitando. Chegaram na ilha do carrapato, apanharam folhas verdes e colocaram no cós do calção, para proteger de pegar carrapatos. Era assim que tinham aprendido com os mais velhos. A temperatura caia pelo menos cinco graus ao adentrar a ilhota. A brincadeira começava logo ali, corriam uns atrás dos outros, apostavam corridas sentados sobre palhas de palmeiras Najá, furavam os pés eventualmente em algum espinho, tacavam bosta de gado uns nos outros, era uma farra. Quando chegava perto de meio dia era hora de voltar para casa e almoçar.

Ana Luiza se colocou novamente no rabo da fila, com o chiqueirador em punho firme. Foi quando, seguindo uma espécie de intuição teimosa, parou e virou-se para olhar detidamente a mata que já tinha ficado para trás. Viu então um vulto correndo de uma árvore a outra, como quem se esconde. Se arrepiou dos pés à cabeça, apertou o passo, mas já estava a seu lado, viu o capim sendo amassado como se algo nele pisasse, porém, nenhuma forma humana ou animal, só o chap chap pisando o capim, quando de repente, ouviu o primeiro tilintar dos chocalhos a se chocarem com força, plam plam plam! Ana sentiu ânsia de vomito no mesmo instante. Ainda ficou uns três segundos muda, pálida, tentando não acreditar no som nítido e alto, mas  de olhos arregalado soltou um grito desesperado: olha o Chocalheeeeeeeiroooo! A primaiada se espantou e foi menino correndo para todo lado, no rumo de casa à toda velocidade, os menores sendo quase arrastados pelos maiorzinhos em meio à gritos de ‘mamãe’ para todo lado.

Na velha casa da fazenda as mulheres na cozinha ouviram de longe os gritos e saíram arrepiadas de medo para ver o que tinha acontecido. Ana Luiza chegou gelada, esbaforida, sem conseguir dizer uma palavra sequer. Foi acudida pela mãe, tomou água, foi colocada na rede desfalecida, sendo abanada por todas. Ouvia vozes ao longe sem distinguir quem falava o que. A essa hora todas as crianças já tinham contado sobre o Chocalheiro. Ninguém tinha ouvido nada, só se assustaram com grito de desespero de Ana Luiza. A menina dormiu profundamente por mais de duas horas seguidas. Quando acordou, a mãe deu um caldo de caridade e ela ficou por ali, desconfiada, sem querer contar nada para ninguém. A tardidinha tiveram a ideia de leva-la na benzedeira que morava em comunidade indígena do lado da fazenda. Ela é dessas que vê visagem! Disse a rezadeira, com o galinho de folhas murchas de peão roxo nas mãos.

Voltaram para casa silenciosos nos cavalos. Ana Luiza vinha na garupa da mãe, enquanto o tio e a madrinha vinham nos outros cavalos acompanhando o trote. Cansada, porém serena, olhou para trás novamente e viu o mesmo vulto, o mesmo capim sendo amassado e o tilintar dos chocalhos, dessa vez mais baixo. Deu nervoso, mas ela não tinha forças para gritar, só fechou os olhos, agarrou forte na cintura da mãe e rezou Ave Marias até chegar de volta à fazenda.  Daquele dia em diante seria sempre assim, Ana era a neta que via e sentia coisas que ninguém mais via nos lavrados de Roraima. O avô e a avó a entendiam, eles também tinham disso desde muito pequenos. Conheciam bem o Chocalheiro, só não compreendiam o que aquela coisa queria dizer com tanto barulho. Quem sabe Ana Luiza no futuro pudesse lhes explicar.