Eu pergunto primeiro sobre a vida dela durante todos esses anos ou já falo sobre o projeto?  Mas um abraço demorado eu vou dar e vou respirar bem perto do pescoço para gravar o cheiro. Talvez seja o mesmo perfume, sim, é provável. Algumas mulheres usam o mesmo perfume por anos, mas não ela, claro, besteira minha. Ela mudou tanto as roupas, o cabelo, os assuntos, como não iria mudar o perfume. Esse frio na barriga me incomoda, acaba interferindo nas batidas do coração e deixa minha respiração ofegante, assim como naquela noite mal terminada.

É fabuloso tudo isso. Como uma noite deixa lembrança tão gostosa, a ponto de até hoje me gelar o intestino? Ela vem de vestido, acho. E cabelo solto e que horas são? Talvez eu não devesse ter chegado tão antes, deixá-la escolher a mesa teria sido melhor, mulheres sempre gostam de escolher mesas, ainda não entendo é como eu nunca aprendi a escolher o melhor lugar depois de tantos encontros e mulheres.

Já fazem quantos anos? Sete anos desse amor cozido em banho maria, velado em sonhos confusos, sobrevivendo a mudanças pessoais tão intensas pra mim e para ela. Talvez eu não tenha mudado tanto assim, mas visivelmente ela cresceu e a personalidade antes cheia de jovialidade despretensiosa, ganhou ares de revolta, indignação, maturidade crítica. Devo dizer sobre essa impressão ou vou parecer invasivo? Eu já não sei sobre nosso nível de intimidade, depois de tantas carradas de conversas formais e a vida profissional se cruzando. Talvez o projeto seja só mais um trabalho para ela e eu esteja aqui divagando sobre essa idealização absurda.

Cinco minutos atrasada. Vou ao banheiro, acho que minha barriga dói. Que vexame. E se ela chegar e a mesa estiver vazia. Porque inventei tudo isso, eu poderia trabalhar com outra pessoa, sem ânimos exaltados e foco no resultado, para que vivenciar essa adrenalina na minha idade? Não que eu esteja velho, mas não esperava essa dor de barriga agora.  Ela chegou. Eu sabia! E escolheu outra mesa, claro. Vai achar que estou atrasado, eu não preciso dizer que estava no banheiro, com dor na barriga, que situação. Ok, lavar e secar bem as mãos, prender a respiração.  Acho que daqui ela não me vê. Sim, veio de vestido, amarelo de girassóis, meu Deus, gi – ras – sóis! Como vai ser isso? Como não a levar embora desse lugar e por quê não enfrentei essa covardia social e vivenciei toda essa vontade há sete anos?  Por quê o medo tomou minha consciência naqueles dias? Foi preciso o mundo quase acabar para esse encontro acontecer e ainda tendo um trabalho como desculpa. Quantas camadas preciso retirar para chegar a verdade? Mas será como um filho nosso, isso, um desbunde, uma ode ao amor não realizado.

Eu poderia ficar distante, vendo-a por esse vidro até ladrilhar todo seu rosto com minhas conjecturas, saber por quanto tempo ela me esperaria ali, sentada com esse cabelo de vento, e se fossemos andar pelo parque, ela gosta de árvores e logo aqui perto tem uma sumaúma  linda,  Clara iria gostar. Ela me viu e não sorriu, estará com raiva ou tem um panapaná de borboletas na barriga como eu?  É chegada a nossa hora. Vou.

Conto escrito durante curso de Escrita Criativa, em 2020. Monólogo em fluxo de consciência com personagens Lourenço e Clara. Poderá entrar no Livro de Clara, romance em produção.