Por que sair da Itália para conhecer a Polônia?  O interesse vai além da mera curiosidade e eu já conto, assim que eu terminar de desconstruir o mito de que ‘vale todo esforço para conhecer outro país, outras culturas, enfim, viajar é a melhor coisa da vida’. Recentemente li sobre isso no livro Sapiens, de Harari (2015) e embasou o que eu já sentia, mas ficava até envergonhada de assumir. Eu não acho viajar a melhor coisa da vida, menos ainda depois de ter filho. Em geral, viajar é bem cansativo, tem boa dose de estresse envolvido, antes e durante, e você ainda corre o risco de voltar mais cansada do que já estava. Aqui cabe uma ressalva: refiro-me a viajar de forma econômica. Quem tem muito dinheiro provavelmente vai discordar de mim. Eu também discordaria se eu tivesse grana suficiente para pagar o melhor serviço do início ao fim, mas, como a maioria dos mortais, nossas viagens são sempre um esforço no orçamento.

Ocorre que saímos de Foggia, localizada no Sul da Itália, de trem, às 5h da manhã, rumo a Bari, outra cidade italiana de onde sai a maioria dos voos para o resto da Europa, Foggia não tem aeroporto. A viagem de trem é rápida, pouco mais de uma hora, mas tivemos pequenas intercorrências. Até então estávamos otimistas e animados com as novidades. Luigi nunca tinha andado de trem e estava eufórico. Mas o Google Maps nos induziu ao erro e paramos na Zona Industrial de Bari com zero pessoas nas redondezas e deveríamos ter ido direto para a estação central (sempre vá para a estação central). Reinaldo me olhava com aquela cara de desespero, tipo ‘não tive culpa, juro!’. Eu comecei a rir de nervoso e Luigi, animado, saiu correndo rumo ao trilho do trem, eu dei um grito, ele parou assustado, chorou sentido, eu fui consolar. Andamos mais ou menos 1km no meio da lavoura, para conseguir achar a próxima estação, com nossos casacos chics e mala nova e ainda começou a chover. Quando chegamos na estação, Reinaldo foi ao banheiro e descobriu que estávamos em frente a um cemitério, mais especificamente ao lado de um crematório e dava pra ver a fumaça branca saindo lá na chaminé, era inacreditável tudo aquilo. Tivemos que esperar ali por 30 minutos o próximo trem. Agora estamos rindo de tudo, mas na hora foi tenso.

Luigi animado na primeira viagem de trem

Bari tem um aeroporto moderno e com ótima área de entretenimento para crianças. O voo saiu 11h40, por uma dessas cias aéreas low cost. Sair da Itália rumo a Polônia não tem complicação, pois,  como ambos estão na União européia a circulação é livre bastando apenas apresentar o passaporte.

Aeroporto de Bari tem telas com jogos        interativos e educativos

Não encontramos voo direto para a capital da Polônia, então fomos para Cracóvia, que é a segunda maior cidade do país. Foram 2 horas de viagem, partindo de Bari, as poltronas não reclinam 1 cm, o serviço de bordo é todo pago, até água, se você quiser. Mala? Vinte e cinco euros para poder levar qualquer malinha pequena, além disso, somente uma mochila ou bolsa por pessoa. Chegando em Cracóvia, Luigi já estava com sono, afinal, já eram 14h e ele tinha acordado às 5h da manhã, pegamos um Uber e fomos para a estação de trem, e lá se foram mais 45 minutos de deslocamento, chegando lá a dificuldade para nos localizarmos foi grande, ao contrário do que imaginamos, não tinha placas em inglês e nos deparamos com placas em polonês por todo canto. É polonês e pronto. E amigo, pensa num idioma indecifrável?! Sorte é que a maioria das pessoas, principalmente nesses ambientes de viagem, falam inglês, então lá se foi Reinaldo se virar para comprar nossa passagem de trem para Lodz (nosso destino final). O Luigi nessa hora estava dormindo no meu colo, no banco da estação de trem.

Estação de trem em Cracóvia, onde Luigi não fez cerimonia para dormir

A fome piora qualquer contexto. Eram 16h, eu estava faminta, olhando toda aquela gente diferente, a língua estranha, placas estranhas, meu filhote deitado metade no meu colo, metade no banco da estação, me deu uma sensação de: o que eu estou fazendo aqui, senhor? Bateu saudades da sensação de estar em meu próprio país, na minha cidade natal, onde todo mundo se conhece e qualquer problema pode ser resolvido com alguns telefonemas. Enfim, fiquei melhor depois de lanchar, Reinaldo comprou nossas passagens (60 euros), se tivéssemos comprado pela internet com antecedência sairia mais barato, mas seguimos conselho errado de um amigo e pagamos mais caro. O trem era confortável e a paisagem belíssima, chato é ter que fazer baldeação em uma estação no meio do nada e encontrar a plataforma certa, o trem certo, decifrando palavras sem vogais e respondendo as perguntas infinitas de um curioso nato, no auge dos seus quatro anos, pois ele já tinha acordado e estava com ‘muita energia acumulada’ como ele mesmo diz.

Minha janela do trem entre Cracóvia e Lodz

 

Meio perdidos na baldeação

O trajeto de Cracóvia até Lodz leva três horas e passa pela capital Varsóvia. Pela janela dá para ter uma ideia superficial e talvez falsa da cidade, mas a impressão é de que são regiões em franco desenvolvimento, onde a modernidade se mistura ao histórico cuidadosamente preservado. No entanto existem trechos menos estruturados que expressam uma simplicidade interiorana, mesmo assim, sem dúvida alguma são cidades mais limpas que as cidades que conhecemos na Itália (aqui temos problemas com lixo nas ruas, infelizmente).

Depois de 15 horas de viagem, entre trens, avião e uber´s, chegamos! Mas por que conhecer Lodz? A cidade é a terceira maior da Polônia e tem quase 700 mil habitantes, proporcionalmente é a cidade da Europa com maior área verde urbana, tem universidades com excelente estrutura, bares, restaurantes, cafés, museus e o grande lance: a Polônia não utiliza o Euro e sim o Zloty (1 Real brasileiro é igual a 0,96 Zloty polonês). Como nossa fonte de renda é em real, essa conversão é interessante pra gente, pois nos dá acesso a uma gama de serviços e produtos de qualidade a preços literalmente reais pra gente. (O euro é surreal).

Chegamos sábado e fomos direto jantar na rua Piotrkowska Street , cheia de restaurantes e gente animada (mesmo) do início ao fim, a impressão que fiquei é de que as pessoas bebem muito na Polônia, sejam eles jovens ou adultos, bebem tanto a ponto de ter me deixado com a impressão de que o alcoolismo é um problema social. Pelo menos umas três ou quatro vezes vimos homens tombando de bêbados andando pela rua, pegando bondinho, indo ao shopping e ninguém nem se importava, o bêbado seguia pleno na sua loucura e tudo bem para todos (achei estranho). Nessa mesma rua encontramos diversos edifícios belíssimos, se tem uma palavra que define a arquitetura de Lodz é ‘eclética’, minha preferida é a casa de  Johannes Gutenberg, o inventor da prensa móvel, que possibilitou a revolução da imprensa. Dois dragões alados com peito em ouro figuram majestosos em frente ao monumento. Lindo!

Na rua Piotrkowska Street, ponto mais animado da cidade com bares, pubs e restaurantes ao longo de 5 km

Casa de Gutemberg em estilo gótico com dragões alados

Luigi gostou das esculturas de crianças e ursos espalhados pela cidade

No dia seguinte fomos levar Luigi  para se divertir, afinal o pequeno aguentou a viagem sem fazer manha, fomos ao Park Marszałka Józefa Piłsudskiego que fica no meio da cidade, lá tem um enorme zoológico, parque aquático e áreas verdes de passeio a perder de vista, para quem ama estar em sintonia com a natureza é revigorante. Tivemos a sorte de pegar dias de sol e calor confortável, aqueles 24 graus no horário de pico e 19 graus ao amanhecer e a noite. Um brinde em plena primavera européia, pois nem sempre faz sol e calor por três dias seguidos.

Dia no Parque

Sabe o tal do prana? Aqui facilmente conseguimos nos conectar em meio a tanto verde!

Conhecemos ainda o complexo Manufaktura que são adaptações de antigas fábricas de tecelagem para shopping e área de lazer com mais bares, restaurantes, museu e centro de convenções. Circulamos por todos esses lugares de bondinho e de uber, o transporte público é eficiente, os horários são atualizados direto no Google Maps com precisão de minutos, prático e rápido! Mas viajar com criança é imprevisível, em alguns momentos ele simplesmente cansava e pedia colo (como levar no colo 18 kg?), o desafio era não deixar esse pedacinho de gente chorar de tão cansado, não se pode exigir dos nossos pequenos o interesse que temos pelo mundo, ou seja, fazer turismo na Europa com criança nos deixa de certo modo limitados (haja braços e costas). Optamos por não levar o carrinho que compramos aqui em Foggia, pois o preço para levá-lo no avião era mais alto que um carrinho novo.

Complexo de passeio Manufaktura

Lodz é cheia de praças e lugares agradáveis

A viagem de volta foi mais cansativa que a ida, nem vou descrever os detalhes aqui, pois o texto já está enorme, mas em resumo, passei a noite em claro com estradas em obras, motoristas conversando e depois roncando e ainda tinham as freadas abruptas, só Luigi descansou, ele é bom de sono (ainda bem). As pessoas só mostram nas redes sociais a beleza dos lugares e isso não é uma crítica, eu também só mostrei o lado bom, afinal nas horas de cansaço eu estava tão puta da cara, que nem queria saber de celular, o fato é que viajar na Europa não é glamour puro como alguns ainda acreditam ou querem fazer acreditar.

Reinaldo ainda registra minha cara de uma noite toda sem dormir. O pequeno Luigi faz bom uso de nossos colos

Depois dessa viagem eu decidi que só vou para cidades mais distantes depois de conhecer o que há de belo aqui por perto. Fomos conhecer Lodz diante da possibilidade de construir um projeto futuro nessa cidade, mas fato é que percorrer longas distâncias dependendo de vários tipos de transporte com uma criança não é confortável, não é descansar. É uma experiência intensa, com altos e baixos, ou talvez eu esteja ficando chata e velha, mas de todo modo, esteja preparado ou preparada para enfrentar o incomodo do novo.