Eu não achava que encontraria prazer em cozinhar diariamente. Em meus oito anos de casada, nunca tive essa rotina. Era uma regra secreta: estudarei e trabalharei tanto e tanto, que não terei tempo de cozinhar. Eu tinha pena da minha mãe, que por vezes fazia comida a noite ou logo de manhã muito cedo, quando eu e minha irmã éramos pequenas. Depois, muito esperta e coerente, ela nos ensinou a fazer a boa comida roraimense, com cheiro verde até no feijão.

Me ensinou a limpar um frango, tirar pele e gorduras excessivas, seus miúdos de dentro do corpo e eu observava consternada aquela ave molenga, com suas asinhas abrindo e fechando entre meus dedos. Era entediante, ainda mais com um pai virginiano que geralmente reclamava da comida, principalmente se estivesse salgada. Era aquele clima temeroso na mesa, com a cozinheira do dia chateada por não ter seu trabalho reconhecido.

Para sair do tédio da rotina diária, eu me aventurava nas receitas francesas dos livros de cozinha de minha mãe. Eram livros verdes, com fotos lindas e coloridas ensinando de madalenas a suflê. Eu adorava aqueles livros e vivia indo à banquetes imaginários nos pratos bem montados. Tinha 10 ou 11 anos? Ou 13? Não faço ideia, mas lembro bem das diversas receitas desandadas, queimadas e alguns poucos sucessos. Repetidas vezes ouvia broncas de minha mãe por deixar a cozinha suja ou por estar estragando ingredientes, quebrando copos, pratos. Meu pai prometeu fazer a simpatia do colar de vidro quebrado para evitar os frequentes incidentes.

Quando sai da minha cidade para fazer faculdade fora, descobri que pior do que fazer a própria comida todos os dias é se preocupar em comprar a comida de todos os dias, já que isso envolvia ter sempre o dinheiro, o tempo e a disposição de ir ao supermercado e não foram poucas as vezes que por pura falta de gestão financeira eu comi miojo. Eu e mais da metade dos boa-vistenses que moravam fora, tinham caso de amor e ódio com o projeto de macarrão feito de pura gordura hidrogenada.

Aqui na Itália eu peguei a função cozinheira do lar pra mim, por puro prazer  e curiosidade de misturar essa vida de ingredientes diferentes e tão naturalmente bonitos. A princípio pensei em alternar os dias de cozinha com Reinaldo (que também sabe cozinhar, ainda bem), mas depois de uma semana me veio a sensação sem nome, aquela nostalgia do que não vivi, o sentimento de poder viver e descobrir algo novo e sem ninguém para me repreender. Segui em frente brincando de colocar salsa fresca em carne vermelha, frutos do mar e frango, pra perceber olfativamente o que mais combinava. Eu poderia entrar na internet e estudar um pouquinho o que combina e o que não dá certo, mas estou me dando o prazer de descobrir sozinha o que harmoniza. Vez ou outra eu vejo alguma receita de algum chefe bacana só pra fazer algo parecido e apesar de ter outro virginiano na minha vida, o resultado tem sido ótimo a tirar pelos elogios.

Nesses três meses de rotina diária de cozinha, no café, almoço e jantar, eu inacreditavelmente me sinto mais empoderada, primeiramente por ter um momento só meu, no qual as demandas do filho são resolvidas pelo pai. Depois por ter descoberto o mundo dos podcasts, essa ferramentinha maravilhosa que nos permite ouvir sobre tudo e todos enquanto mantemos as mãos ocupadas. Descobri o “Imagina Juntas” no qual são debatidos temas diversos da contemporaneidade, por duas garotas e um cara do meio publicitário/jornalístico/artístico, os chamados “criadores de conteúdo”, um novo tipo de profissão/ocupação. Os episódios tem duração média de 60 minutos e por conta deles percebi que se faz um almoço em 40 minutos. Outro podcast show é o “Rádio Escafandro”, feito pelo jornalista Tomas Chiaverini, o qual aborda temas diversos, porém, tratando-os em profundidade a cada episódio, nos dando uma visão crítica, com fontes seguras sobre o assunto. No último episódio “Churrasco do apocalipse” ele apresenta dados e opiniões preocupantes sobre o futuro do planeta, nosso consumo, nossa alimentação e etc.

Além dos podcasts tenho tido esse tempo meu para ouvir música. A vida estava tão atribulada a ponto de não conseguir escutar em paz os lançamentos dos meus artistas preferidos e as músicas que me remetem a pessoas e momentos bons, as trilhas sonoras da vida, sem a qual uma boa pisciana não consegue viver.

E por fim, especialmente nos fins de semana, eu descobri o prazer de cozinhar com vinho. Não somente colocando vinho como ingrediente, mas bebendo mesmo, sozinha na cozinha, sorrindo dos meus atropelos e mini desastres entre pia e fogão. Me toquei sobre quantas mulheres eu já vi fazendo isso ao longo da minha vida, cozinhando com uma cervejinha do lado, sorrindo feliz com trivialidades e saquei uma certa cumplicidade secreta entre todas nós. Lembrei a minha própria mãe pedindo ao meu pai que servisse a dose de Martine dela, enquanto cozinhava, lembrei de uma amiga dizendo que fazia feijoada tomando cerveja e que era um momento de plena felicidade, percebi os sentidos aguçados pelo leve torpor do álcool e como as medidas fluem, as mãos ficam leves, o foco no momento fica mais evidente e o preparo do alimento pra toda família se torna um acontecimento, uma terapia. Ressignifiquei o ato de cozinhar. Experimente isso! É prazeroso.