Eu perdi o medo de envelhecer. Saiu de minhas costas o piano da beleza. Joguei fora a caderneta de capa preta e branca onde anotava meu peso e medidas desde 1º de janeiro de 2012. O ritual era sempre o mesmo: acordar, espreguiçar e antes de ir tomar banho ou colocar uma roupa para tomar café eu me olhava no espelho, narcisicamente. Depois me pesava e todo início de mês tirava medidas. Em 2012 eu tinha 29 anos, acabara de me casar e não percebia ainda as mudanças metabólicas naturais da idade, queria como quase toda mulher perder sempre dois ou três quilos, nada demais. Nos anos seguintes as coisas começaram a mudar e com a maternidade em 2014, engordei 16 kg e nunca mais perdi todos. Resultado: mais uma das milhões de vítimas da pressão social (muitas vezes velada, mascarada) pela magreza, pela beleza, pelo corpo padrão.

Já foi meu assunto preferido entre amigas, já foi minha principal queixa ao chegar na terapia em 2015, já foi motivo de brigas no casamento, já foi motivo de idas e vindas a nutrólogos, nutricionistas, farmácias de manipulação, personal trainer e por último, motivo de uma cirurgia plástica da qual não me arrependo, mas sobre a qual não consigo falar abertamente. Não por querer fingir que mudei o corpo naturalmente, mas por certa vergonha de ter me submetido a uma anestesia geral e a uma recuperação tão dolorosa por vaidade. E logo no momento de tantas transformações pessoais no campo intelectual, conhecendo tantas mulheres incríveis e que simplesmente se aceitam, eu me vi incomodada com meu corpo há quase uma década, submetendo-o a tantos processos dolorosos, de fome em alguns momentos, exageros em outros, tanta intensidade e sem parar para ouvi-lo.

Não estou escrevendo um texto de vitória, não ainda. É um grande desabafo pessoal sobre essa busca quase automática por um padrão de beleza que escapa de nossas mãos, de nosso controle por tantos motivos. Ainda estou vivenciando o processo de me olhar no espelho, mas vejo hoje além do corpo, visualizo um corpo vivo e que tem relação direta com minha alma e não com os padrões lá de fora. Sigo lendo intensamente sobre a relação humana com o alimento, sobre autocontrole e desapego com esse prazer incrível que é deleitar-se à mesa. Uma abordagem mais holística, a partir da filosofia ou medicina Ayurveda. O livro “Você tem fome de Quê?”, do médico Deepak Chopra, faz um bom resumo de todo esse sistema complexo.

Uma das lições importantes que aprendi nesse trajeto cheio de paradoxos com meu corpo foi parar de pegar o exemplo do outro e aplicá-lo em minha vida. Isso pode ser nefasto e gerar angustias desnecessárias, num momento em que o mundo precisa tanto de pessoas sãs. Se é para falar sobre engordar ou emagrecer, sobre compulsão alimentar, autoestima e afins, a minha escuta hoje é sempre a do profissional de saúde e dos bem qualificados, sensíveis ao tema, que fogem da abordagem unicamente física e compreendam a complexidade do todo. Muitas vezes os amigos só vão exercer a dolorosa função de te fazer pensar em si como pessoa sem força de vontade, portanto, fraca. E essa noção é muito superficial para lidar com questão tão delicada, que mexe diretamente com nosso amor próprio. Aos 38 já não ouço opinião de ninguém sobre meu peso, nem do meu marido. O silêncio sobre esse tema reina absoluto e o diálogo agora é entre minha mente/consciência e ele, o corpo, hoje, muito acolhido e amado. Por uma questão ética e para me preservar do mix de arrogância e ignorância de quem simplifica a questão conforme sua experiência pessoal (se eu consegui, todo mundo pode conseguir, basta querer) eu já não ouço e nem dou pitaco.

Aos 38 eu já aceito meu sobrepeso, me alegro com minhas formas, doei minhas calças 38, que ficavam guardadas para quando eu voltasse ao peso ‘ideal’. Fiz terapia por quatro anos para amenizar toda a culpa que eu carregava por não conseguir comer somente proteína e salada e se não caí num distúrbio alimentar grave foi graças a esse acompanhamento. Tenho a mente forte, voltada para a busca pelo sucesso através de muito trabalho e estudo, sempre fui a pessoa focada em crescer, conquistar, alcançar, fazer o melhor em cada âmbito da vida, mas deixei a corrente da pressão social e publicitária me levarem a crer no meu corpo como equivoco momentâneo, ocasionado pelo excesso, pela gravidez, pelo estresse do trabalho e sim, foi tudo isso e tudo bem. A retomada do controle da alimentação não deve começar pela negação de tudo isso e sim por um nível de consciência e saúde que vão além. Não pode ser algo violento, forçado por dietas da moda, remédios e ou suplementos que prometem ser milagrosos. Começa por se abraçar do jeito que se é, com todas as compulsões, exageros, manias e pela busca de informação que te possibilitem mergulhar em si, expandindo sua consciência, não exatamente para emagrecer, muitas vezes para compreender que somos diferentes em tamanho, formas e nem sempre estar fora do padrão é estar com a saúde prejudicada. Essa ditadura é mercadológica e já não me domina. “Livre estou”. O mercado não pode calar o importante diálogo entre nosso corpo físico e espiritual.  O primeiro tem coisas importantes para dizer ao segundo, na busca do equilíbrio e é disso que precisamos.