Em meio à ansiedade trazida por tantas notícias e medos relacionados ao Coronavírus, continuo diariamente fazendo meu curso de escrita criativa, o qual nos demanda diversos exercícios textuais. A crônica que segue é o exercício 2, cuja proposta foi relatar um episódio verídico da infância. Espero que curtam.

Eu tinha pouca idade, coisa de sete ou oito anos e já gostava de festa e de dançar. Eis que ouço comentários entre os adultos sobre o halloween, essa festa americana um tanto sem sentido para mim até os dias de hoje. Tia Carmen era professora de inglês da escola Fisk e estava ajudando na organização do evento, que seria em uma boate. Minha mãe já estava providenciando a fantasia da minha irmã mais velha, Cristiane e tia Carmen mandara fazer uma capa de cetim roxo, super brilhante, dos ombros à panturrilha, além de um chapéu comprido, negro de abas largas. __ O que é halloween, tia? Perguntei. __ É a festa do dia das bruxas, todos se fantasiam, dançam, teremos jogos, sorteios e brincadeiras. Respondeu tia Carmen. Meus olhinhos brilharam de imediato, eu tinha de ir.

Nas visitas dominicais à casa da minha avó, eu ia direto para o quarto das tias Carmen e Mita, para mexer nas penteadeiras cheias de produtos de beleza, maquiagens, tudo o que não pertencia a minha idade, mas que eu já ‘curiava’ ansiosa por usar e me sentir adulta. A novidade daquele mês era a capa de cetim roxo brilhante, pendurada em um cabide na porta do guarda-roupas de madeira. __ Não pode tocar para não amassar! Dizia tia Carmen. Mita era irmã dela, minha tia e também madrinha, responsável por boa parte da minha criatividade ao contar histórias de boi mandingueiro e do bicho Gabriola, que morava dentro de um pote de barro. Com elas íamos, eu e mais uns 10 primos, para a Nova Cruz, pequena fazenda da família passar as férias de janeiro. Outra dezena de causos ocorreram lá, mas voltemos ao halloween que se aproximava.

Ir para a festa usando aquela capa e chapéu de bruxa era meu desejo mais vivo naqueles sete anos, imaginei-me bela e lúgubre, adentrando sinistra na boate, esse lugar obscuro onde só adultos podiam ir, mas, naquele dia reservado só para bruxinhas e vampiros dançarem totalmente protegidos da chuva. Mamãe tratou de dizer que não tinha dinheiro para comprar fantasia para mim e para minha irmã Cristiane e a preferência era dela, que já estudava no Fisk. Minha vez ia chegar, mas não agora. Eis que minha madrinha se manifesta e diz que vai conseguir uma fantasia para mim, tratando de explicar que não seria a capa roxa e o chapéu de bruxa, claro, pertencentes à tia Carmen, mas daria um jeito.  Tornei-me grilo falante, serelepe, de um lado para outro só halloween, fantasias e boate, muitas novidades para uma menina de sete anos.

No dia da festa fomos para a casa da vovó nos arrumar e eu só pensava em que fantasia minha madrinha providenciara. Ela sacou de algum lugar uma roupa do Batman que pertencera a algum outro primo e me vestiu. __ Mas eu sou menina, não posso ser o Batman! Disse eu no alto da minha decepção. __ Calma aí, basta pegar essa capa aqui e costurar na parte da frente para cobrir o símbolo, você será a mulher gato! Disse a madrinha. Aceitei meio a contragosto, vendo-a pegar linha, agulha e a capa do Batman, passar de um ombro a outro, como um xale e costurar, cobrindo assim o morcego preto e amarelo.  Eu olhei aquilo meio desconfiada, mas quando colocou em mim a máscara de gata e me vi no espelho, toda de preto, revesti-me de empáfia infantil e incorporei a personagem.

Lembro-me do meu maravilhamento ao chegar naquele ambiente meio escuro, cheio de luzes coloridas e um globo espelhado no meio de um quadrado, música alta e um monte de crianças e adolescentes fantasiados. Bruxas, lobisomem, vampiros, me esbaldei gritante, inebriada pelo barulho das outras crianças que faziam passinhos coreografados, adolescentes se divertindo entre sorrisos e olhares pelos cantos da festa. Eu sentava, descansava um pouco e logo voltava para a pista com as outras coleguinhas que se dispunham a dançar descoordenadamente comigo. Tia Carmen sempre ali ao redor, com sua capa roxa cintilante de bruxa profissional.

Foi quando em uma das idas a pista de dança, num rodopio ligeiro, a capa costurada em minha frente engatou no braço de alguém e descosturou um pouco, deixando a mostra o conhecido morcego amarelo. Minha identidade secreta foi apontada por um menino doido que abriu a gargalhada: __ Há há há, ela é o Batman, denunciando minha fantasia improvisada. Com dedão em riste apontando para o centro do meu corpo, ele ria e mostrava para os amigos do lado e uma risada generalizada começou quando eu sai correndo para me esconder em um dos sofás no canto da festa. Lembro-me do rubor no meu rosto, da vergonha sentida, do sentimento de inferioridade diante da impossibilidade de tirar a fantasia e só chorei no cantinho.

Estranhando minha repentina quietude, tia Carmen viu no canto da festa e foi ver o ocorrido. Contei que “não sairia dali de jeito nenhum”. Solidária, ela desatou o laço de cetim do pescoço, tirou a capa roxa brilhante, colocou sobre meus ombros, ajustou o chapéu de abasta largas, negro e pontudo e disse: __ Vá dançar, você agora é uma bruxa! Não me fiz um segundo de rogada, voltei a pista, rodopiei com minha nova fantasia loucamente, girando a capa, fazendo vento na cara do garoto apontador de minhas fraquezas, que só olhava, calado. Dancei e dancei e desde esse dia eu tenho muito carinho por minhas tias e pelas bruxas.