Ter um blog na pós-modernidade ou em plena modernidade líquida é totalmente desnecessário. Numa realidade em que nem os relacionamentos reais duram, a relação leitor x escritor não poderia ser diferente. Conectar-se a alguém, dispender tempo lendo posts, esperar pela próxima postagem parece dar prestígio demais em meio ao caos informativo. Mais ainda na era da imagem, quando uma boa foto vale mais que 3 mil caracteres sem espaço. E se tiver uma bunda bonita aparecendo, vish… nem precisa de legenda. É o mundo da rapidez, da volatilidade, da efemeridade e eu estava agindo assim, no automático.

Estava líquida, hoje tendo me solidificar diariamente, mas não é fácil. Explico: estou morando há um mês longe do Brasil, em uma cidade de 140 mil habitantes no sul da Itália, chamada Foggia. Eu e meu companheiro temos um projeto a longo prazo, visando construir a vida que realmente sonhamos. Foram dois anos de planejamento até aqui e temos pelo menos mais seis ou 10 anos de execução. E olha, é difícil fazer as coisas conforme o planejado, quando é tão simples e tentador mudar de ideia, seguir caminhos mais fáceis, deixar a vida nos levar.

Assim como a água, que se adapta e se molda a qualquer recipiente, estamos todos, ou pelo menos a maioria de nós, tentados a mudar os planos a todo momento. Isso em geral é bom, mas ao mesmo tempo é perigoso, por trazer angústia e ansiedade junto. Por isso, é tão primordial exercitar a fé e se agarrar ao que amamos, realmente.  Enfim, o texto não é pra ser filosófico não, estou divagando sobre isso só por ter lido Bauman esses dias.

Esse blog começou a ser pensado há dois anos. A logomarca foi desenvolvida pelo publicitário Fred Martins (um querido cheio de bom gosto e personalidade, que fez duas logomarcas lindas até eu escolher essa) o mesmo que desenvolveu a logo Van Brandão, do meu antigo site. O website ficou a cargo do Kleberson Amorim, garoto cheio de paciência e super talentoso, que também era meu webmaster do site anterior. Eu gosto de trabalhar com os mesmos parceiros sempre. Só mudo quando eles ficam super cheios de trabalho a ponto de não me atenderem mais (rsrs). A princípio minha ideia seria fazer uma cobertura sobre as novidades do meu país Roraima, ops, do meu Estado, com temas culturais, literários, baladeiros, bafônicos, políticos, modernosos, mas eis que surge a aprovação no mestrado em Letras e pá, mudei o rumo. Fazer mestrado era um sonho desde a saída da Faculdade, sonho este aposentado para casar, ser mãe, trabalhar e etc. Aí pensei: como casar tudo isso? Bem, é fazer uma coisa de cada vez ou quase isso. Concluí o primeiro ano de mestrado, qualifiquei, costurei nossa vinda para a Itália, por meio do mestrado (com apoio do marido e de professores queridos da UFRR), o que é melhor ainda e deixei o blog lá, prontinho nesse mesmo endereço.

Chegando aqui na Itália eu coloco o pé na realidade e mudo os planos novamente. Não faria o menor sentido e eu não teria a menor condição de produzir conteúdo tão vasto estando longe da minha cidade e em tempos onde o colunismo social está tentando se reinventar para poder resistir. E em verdade o foco central é a minha pesquisa em Literatura indígena contemporânea, através do artista indígena makuxi Jaider Esbell, sujeito de pesquisa da minha dissertação.  Escrever esse trabalho e mesmo tempo me adaptar à nova vida em outro país, com um filhote ainda pequeno, é uma vibe poderosa sendo desprendida. Eu precisava ficar com o que realmente me encanta, me motiva e me distrai: a produção de textos.

São contos, crônicas, fabulas, poesia (essa ainda um desafio) e um diário sobre essa vivência longe de casa. Já publiquei seis textos, sendo um conto, chamado Encontro (aqui ele está completo, pois participei do concurso literário Palavradeiros no final de 2018 com esse material, mas em versão bem mais curta, com outro desfecho), três crônicas, escritas no final do ano passado, sobre assuntos diversos, duas delas publicada no Facebook e um primeiro relato sobre a Itália nos primeiros 15 dias morando aqui. A ideia é atualizar o blog com algum texto diferente toda segunda-feira.

Não vou mentir, é desanimador escrever para um mundo no qual existe o “aviso textão”. Vê o absurdo: as pessoas se incomodam quando o outro escreve um texto longo nas redes sociais. Elas nem se dão ao trabalho de deixar pra lá e apenas pular para o próximo post. Não! A pessoa perde tempo reclamando que o texto do outro está longo. É o cúmulo da… da… da falta de respeito com a verdade do outro, pra ser bem educadinha rsrs. Porém eu decidi, escrevi pra mim, para meu filho quando crescer, para as pessoas preciosas que curtem umas divagações sinceras e cheias de paixão pela vida. Li em algum lugar que o mundo precisa de mais gente fazendo o que ama e não o que dá dinheiro, então eis-me aqui, aprendiz de escritora. Quem sabe sai um livro desse ciberespaço, desse projeto paralelo tão, tão minha janela, minha cara, minha verdade.

Beijos de luz, mesmo! Sem ironia.