A mea culpa está em alta, então venho aqui fazer a minha, já que estamos no Abril indígena, mês em que se comemora os 16 anos de homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Nem sempre eu estive apoiando as causas indígena, por pura imaturidade, falta de informação, por simplesmente repetir discursos prontos e não ouvir o outro lado, o lado do indígena roraimense. Por pura ignorância mesmo, deixando de lado os eufemismos. Mas o que comecei a desmistificar há 10 anos, durante as aulas da minha primeira especialização com o professor Devair Fiorotti (in memorian), ainda vejo ser tristemente repetido hoje, mesmo com tanto acesso à informação.

É muito importante se dar a oportunidade de mudar radicalmente de opinião. Sou grata por compreender hoje o que é o direito originário, o direito de ter seu espaço demarcado, protegido, para viver conforme sua cosmogênese, ou seja, sua visão própria de mundo, na qual a terra, os rios, as serras, o lavrado, os animais são elementos vivos e integrantes de um todo do qual o indígena é parte integrante fundamental e isso não quer dizer que não possam estar também nas escolas, nas universidades ou em congressos pelo mundo.

Sou grata por ter tido acesso à informação e compreender o trabalho verdadeiramente digno e bonito do movimento indígena organizado, sem o qual todas essas conquistas seriam impossíveis de serem alcançadas. Reconheço o papel fundamental dos líderes indígenas, os embaixadores dos povos indígenas, que percorrem o mundo em busca de apoio. Reconheço e me orgulho de Joenia Wapichana, a primeira advogada indígena do país, primeira deputada federal indígena, eleita por Roraima, ela, que defendeu a homologação no plenário do STF tão dignamente.

Agradeço pelas palavras de cada escritor indígena, cada poeta indígena, cada professor, crítico literário, movimento Roraimeira, cada artista indígena, entre eles posso citar o Makuxi Jaider Esbell, que despertou em mim uma identidade antes escondida, confusa, tão fortemente apagada e silenciada ao longo de minha vida. Nós, que nascemos ouvindo que ser “caboco” é algo pejorativo, compelidos a nos ofender ao sermos chamados de indígenas pela turma do Sul e Sudeste. Está mais que na hora de renunciar ao preconceito que nos habita e manifestar nossa indianidade, nossa ancestralidade indígena.

O processo de reencontro, a chamada formação identitária, é algo muito pessoal, por vezes demorado, conflitante, porque também habita em cada um de nós o hibridismo, estamos, enquanto indivíduos, inevitavelmente envoltos na globalização dos saberes, nas tendências cosmopolitas de um mundo euroamericanizado. Mas descolonizar-se é fundamental e quem ainda não entendeu isso precisa correr, pois arrisca-se a permanecer no limbo da banalidade. Não tenha medo, garanto que mergulhar no universo indígena contemporâneo é movimento acolhedor, de afeto com um passado ancestral de muita luta e sabedoria.

Defender, compartilhar conteúdo, espalhar a luta é algo que hoje faço com todo prazer, não só nas redes sociais, mas também na academia, onde ainda sou pequenina, aprendendo todos os dias, mas cheia de alegria por poder falar e estudar sobre Jaider Esbell, Vó Bernaldina José Pedro, Davi Kopenawa, Ailton Krenak e tantos outros e outras que nos brindam com saberes de outra ordem, outros planos, outras visões em comunhão com a natureza e com o cosmo.