Crônicas

A expansão do seu poder sobre si e sobre o mundo

Luigi e o lago preferido, quase congelando. Inverno na Polônia, janeiro de 2022.

Aquela garotinha da foto ainda é você! Aquela criança engraçadinha, cheia de medo e alegria fácil, apesar da inocência perdida com o passar dos anos, ainda é você! Ainda sou eu e ela só quer ser amada, mas não a qualquer custo. Das muitas coisas lidas em 2021 e que trago para a vida prática em 2022, essa foi das mais marcantes e me veio através de uma mulher, uma das filósofas contemporâneas de que mais gosto: Jéssica Miranda, uma jovem mulher que parece ter nascido com 100 anos.

Já disse por aqui que tenho poucas fotos de minha infância e guardo com cuidado e carinho as poucas imagens resgatadas dos álbuns de família. Aquela garotinha que merecia e foi bem cuidada, com carinho, dedicação e muito esforço por parte de meus pais ainda precisa de atenção e quem deve preocupar-se com ela agora sou eu, apesar das muitas demandas e exigências da vida moderna, esse carinho especial com ela (comigo) vai ser aperfeiçoado diariamente. É meu compromisso e isso inclui não burlar processos dolorosos, sentimentos incômodos, enfrentar fragilidades, como, por exemplo, a constante necessidade de aprovação. É preciso por vezes ser chata, “a chata”.

Outra flecha de luz (comumente chamado de insight, palavra em inglês perfeitamente substituível) me foi lançada pela psicanalista Maria Homem, outra mulher realmente incrível do nosso tempo. Com base em seus muitos anos de leituras e estudos apurados, falou sobre a importância da angustia nossa de cada dia, sentimento amedrontador, mas capaz de nos apontar os erros cotidianos que nos levam a infelicidade e sobre a importância de aceitar tal sentimento e eu acrescento: de cara limpa, sem entorpecer a mente com qualquer tipo de vício, mesmo esses bobinhos que a gente prefere chamar de “estilo de vida”.

Ainda cultivo minhas válvulas de escape: o prazer da comida, o vinho, a procrastinação nas redes sociais, mas não quero e nem posso mergulhar nisso como fuga e me ausentar da problematização necessária de tantos temas fundamentais e não que eu tenha soluções prontas ou alguma importância individual, mas me vejo na obrigação de reunir força moral para fazer minha parte, visto ser mãe, comunicadora, pesquisadora decolonial e pessoa nascida e criada na Amazônia. Hoje olho para minha angustia, minha insatisfação e primeiramente as acolho, me acolho e tento refletir sobre o mundo a partir dos lugares de fala que eu construí, respeitando minhas limitações e paradoxos, domando esse ego, que por vezes quer brilhar por brilhar e se perde.

Às favas as minhas listas de metas. Não é sobre isso. Trata-se do agir no minuto seguinte e assim, de minuto em minuto transformar horas e dias em caminho resiliente, sem perseguir alegria sem fim ou acreditar nessa felicidade pérfida que se apresenta ao léu.

E para além do resgatar e cuidar da criança inocente que você já foi um dia, que fomos um dia, além do acolher nossa angustia existencial com respiros e compreensão, fica meu convite para o aprimoramento do que você vê, lê, mesmo que seja incomodo num primeiro momento, mesmo que você queira “só preservar sua saúde mental”. As redes sociais e redes de afetos são formadas por pessoas e precisamos ter sabedoria para dar voz e incentivo também aos  que se preocupam, aos que não lacram, aos que são incríveis não só por fora. Falei aqui sobre duas mulheres, mas existem outras e outros muitos,  pessoas que doam tudo o que aprenderam, muitas vezes gratuitamente ou de forma acessível. Doam conhecimento passível de transformação e expansão do seu poder sobre si e sobre o mundo.

Feliz 2022  e  #FORABOLSONARO

Vanessa Brandão

Vanessa Brandão é jornalista amazônida. Manauara de nascimento, criada em Roraima, é indígena descendente do povo Wapichana. Doutoranda em Estudos Literários pela Unesp – SP, mestra em Letras pela Universidade Federal de Roraima (UFRR), pesquisando sobre arte e literatura indígena. Tem especialização em Assessoria de Imprensa e Novas Tecnologias da Comunicação e em Artes Visuais, Cultura e Criação. Publicou seu primeiro livro em 2022, com o título ‘Entre Pinheiros e Caimbés’. Escreve poesias, crônicas e contos e trabalha na produção de um romance. Atualmente mora parte do tempo em Lódz, na Polônia e parte em Boa Vista, Roraima, no Brasil

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One thought on “A expansão do seu poder sobre si e sobre o mundo

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    Hehe adorei a última linha. 🤗 Só bora!

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