Me vi capturada pela pauta feminista e antirracista em pleno BBB. Sete negros no programa que até então era predominantemente de brancos e enfatizava discussões que beiravam o ridículo, salvo algumas exceções. Mulheres negras de muita potência e força social, mulher nordestina, gays, gente do sertanejo e do rap, dando uma ideia de obediência à diversidade, enfim, parecia ser interessante.

No entanto, o que tem acontecido ali dentro, nessa experiência humana perigosa, não é fácil de ler e nossa tendência radical de apontar vilões e mocinhos é nitidamente equivocada. O que se pode observar do telespectador que debate o programa nas redes sociais mais diversas é a forte tendência a rotular e se fechar para uma observação mais atenta e complexa dos envolvidos na trama ‘real’. E essa parece ser a maior diversão do público: julgar. Os participantes, excluindo alguns poucos, imitam o público e são zero escuta. Ninguém quer ouvir ninguém, todo mundo quer falar, ensinar, maltratar, excluir. Gente que sofreu tudo isso a vida inteira e entrou no movimento para combater a exclusão e o preconceito, reproduziu na prática o que vivenciou na sociedade.

Nesse contexto, o cúmulo da agressão é o julgamento que diz em voz alta qual era a intenção do outro. É de uma arrogância humana sem tamanho dizer o que o outro está sentindo, tirar a autenticidade das ações, julgar as intenções do outro, quando muitas vezes nem nós sabemos o porquê de ter feito algo. Por vezes as razões de nossas ações de impulso só depois são compreendidas. E nesse processo é muito dolorido ouvir de outros qualquer avaliação, principalmente a ponderação depreciativa. Ver um beijo homossexual de um negro e de um nordestino foi demais para as mentes fechadas que ainda insistem em não normalizar o ato?

“Abre essa porta aí, tio”. Disse Lucas com mochila nas costas, aos prantos, pedindo para sair daquela zona de opressão e conflito. Ele é santo? Obviamente não. É agitado, falador, ficou confuso e disse bobagem, mas nada justifica as torturas psicológicas a que foi submetido. Como se já não bastasse todas as punições nas provas, excluído de participar dos jogos, criticado em suas mínimas ações, foi crucificado por demonstrar seus afetos no auge da bebedeira, como se a bissexualidade não fosse algo tão comum entre nós. E o pior: crucificado por quem deveria acolhê-lo. Lumena foi inoportuna nesse momento e em alguns outros, lançando seu palavreado forte, cheio de termos popularizados na bolha da militância, deixando não só Lucas, mas todo o público confuso e indignado com ela. Mas eis aí um grande risco: tirar de todo esse imbróglio televisivo a crítica à militância e desviar do problema  inicial, que é  o racismo e a homofobia. Lumena foi chata e técnica num momento que deveria ser acolhedora, mas nem de longe é a vilã da história.

Já Karol Concá, a cantora curitibana, também mostrou ao público o quanto a arrogância e o egocentrismo podem destruir toda uma carreira. Ela, que durante toda a vida sofreu preconceitos e precisou ser forte, dura e áspera para conquistar seu espaço, deixou claro em suas práticas o quanto a existência deixou marcas. O processo é diferente para cada pessoa e tem gente que foi maltratada a vida inteira e não devolve isso diretamente para quem está sob seu julgo, mas debater essas relações de causa e efeito é outra vez cair no erro de ser o radical julgador. E precisamos todos aprender a ouvir mais e compreender na prática o que é ser empático. Esse é o desafio do século: agir menos, falar menos, ouvir mais, compreender mais, segurando nosso ímpeto imediatista de ter uma opinião e conclusão superficial para tudo. É preciso lembrar que ainda somos a geração que apanhava dos pais e temos marcas por isso, em alguma medida somos todos maldosos como foi Karol Concá com Lucas. (Projota cometeu erros e maldades semelhantes aos de Conká, os quais não adentrei para não alongar demais o texto).

Outra reflexão que ouso fazer no calor do momento, com base em impressões aleatórias, é sobre até que ponto a militância quer, realmente, mudar o mundo ou quer apenas sobreviver no conforto de uma bolha de iguais? Fica cada vez mais evidente, e o BBB é uma pequena mostra do que é a difícil sociedade brasileira, que, para mudar o mundo, é preciso reaprender a se comunicar, com simplicidade e paciência e estar sempre atento as ciladas da arrogância intelectual, que separam o pensador, o militante, o acadêmico, da massa, do povo, e as coisas só mudam quando a massa muda. E quando essa transformação começar a acontecer em grande medida, menos gente será submetida a torturas psicológicas de toda ordem, inclusive na TV.

Se não tivermos condições psicológicas para manter esse diálogo, talvez o caminho mais importante nesse momento seja exatamente o de fortalecer a mente, o nosso psicológico. Por último, ainda sobre a função do militante, do estudioso e ou acadêmico, se existe a intenção de deixar algo concreto para um mundo melhor, é preciso aprimorar conceitos de forma mais clara e banaliza-los, não no sentido de deixar a discussão rasa, mas de modo a torná-los compreensíveis para a população e abrir mão da mania de controle sobre quem pode ou não levantar bandeiras. Entender que não se tem controle de quem usará as palavras ou as teorias. Estas ganharão as ruas das cidades e com sorte, viverão em liberdade, por vezes sem a profundidade que o tema merece, mas ainda terão potência transformadora em diferentes esferas e isso importa muito.