Luigi tem quatro anos de pura fofura. Toda mãe diz isso né? Estávamos sentados à mesa almoçando e ele perguntou pela primeira vez: por que estamos aqui e não voltamos pra Boa Vista? Reinaldo com a boca cheia de comida, engole rápido e responde espontaneamente. Porque o papai estava trabalhando tanto, mais tanto e estava tão estressado que nem tinha tempo de brincar com você, chegava em casa e continuava trabalhando, lembra? Nem tínhamos tempo de brincar, de nos conhecermos, meu filho, e isso me deixava muito, muito triste. Luigi assimilou e ficou impressionado, repetindo a resposta do pai umas 20 vezes. “Muito triste papai? Porque a gente não brincava né? E isso era muito triste né, papai? Agora a gente brinca né? Agora a gente joga e brinca muito né? Agora você não está mais triste né? Acabamos o almoço e o Luigi repetindo o tema.

Reinaldo passou os últimos três anos gerindo mais de 100 profissionais, no maior laboratório do Estado, que fica dentro do maior hospital de Roraima, em plena crise migratória, com uma explosão no número de atendimentos, pressão de todos os lados. Sem dúvida alguma, dos 10 anos de funcionalismo público, os últimos anos foram os mais intensos pra ele e consequentemente pra gente. Fez um excelente trabalho. Somado a isso ainda tinha em casa uma esposa fazendo mestrado, trabalhando e tentando ser uma boa mãe, ou seja, igualmente ocupada e estressada. Ele sempre tão discreto, se ler o texto de hoje vai falar reclamar: “Você fala da nossa vida assim, não gosto disso”. Eu sei, amor. Desculpa, sei lá porque estou falando disso exatamente. É que deu vontade e acho que outros casais no mundo todo passam por isso, de ter uma criaturinha ou criaturinhas lindas pra criar e estão tão enfadados de tantas obrigações profissionais, que as coisas lindas passam e a gente nem se dá conta. Acho que muitos casais se separam por problemas decorrentes dessa rotina engessada, cheia de atribuições, obrigações, que gera cansaço físico e mental, falta de paciência, intolerância, manias e pequenos vícios que se acirram, resultando na necessidade de extravasar no churras do fim de semana, no restaurante japonês, no doce, enfim, uma receita intensa que requer sabedoria para ser digerida e nesse mundo líquido, nem todos têm a paciência que o amor requer.

Esse é só um dos aspectos da mudança para outro país. Ter mais tempo. Não tem como falar de todos (pelo menos um cinco motivos) só nesse post. Então, com mais tempo, a adaptação pra gente enquanto casal está sendo positiva. Sem crises. Mais tempo para olhar nos olhos e ter conversas assertivas, aquelas onde colocamos os pingos nos (is) e podemos dizer com franqueza, com toda sinceridade d’alma quais são as nossas expectativas sobre essa coisa importante chamada família, casamento, carreira, individualidade, sim, individualidade, essa que se perde fácil e confunde nossa motivação para se cuidar, para cuidar de nossos sonhos particulares, das ideias alegres, dos hobbies saudáveis, enfim, aqui sem dúvida temos mais tempo pra tudo isso e mais tempo para nós três. “Nós somos uma famíííííííía”, diz o Luigi por entre travesseiros e edredons embolados, às 9h de uma manhã qualquer, quando finalmente podemos acordar lentamente,  juntos ou depois do almoço, na sesta (obrigatória aqui na Itália) hábito, aliás, ao qual tenho direito por aqui. Em RR o calor me deixava tão acelerada, que não conseguia aquietar o corpo e a alma nem depois do almoço. Era tenso.

Reinaldo tem sido o velho Reinaldo com quem me casei e isso é ótimo. Tomara mesmo que nem leia o texto de hoje. Não precisamos deixar nosso companheiro tão convencido, pra não gerar acomodação, afinal, sou esposa e não mãe dele. Tem dividido de forma justa as tarefas da casa, com o Luigi, mesmo com nossa rotina de estudos, e tem consertado coisas, resolvido outras, o que sem dúvidas é deveras sexy. Esses dias eu estava conversando com uma amiga, sobre o quanto é sexy um homem que sabe resolver problemas tecnológicos e técnicos da casa, de configurar o molden e repetidor de sinal da internet à instalar um novo chuveiro elétrico ou entender o funcionamento da calefação sem perigos de explodir o apartamento, entre outras tretas. Me sinto protegida. Há quem goste de bolsas e joias caras, eu gosto de quem me ajude a resolver os problemas do dia a dia e se importe com o fato de eu ter cabelos longos e ter dificuldade de lavá-los com um chuveiro que esguicha um fio de água, por exemplo. Tentar fazer o possível para que você se sinta bem e confortável na nova morada é uma linda forma de dizer Eu Te Amo e hoje entendo isso.

Esse texto também deveria ser sobre medos e sim, temos. Porém nesse momento estou acreditando que falar de medos é alimentá-los e isso não quero. Se hoje tenho o que agradecer, investirei meu tempo e energia nisso de forma rigorosa e dedicada. Farei isso agora na minha caminhada de fim de tarde, que aliás, tem me rendido bons momentos de reflexão solitária e libertadora. Conheço quase todo o bairro, em todas as direções. Nas primeiras semanas eu me entreguei a mania quase irresistível de findar a caminhada em um dos cafés espalhados pela redondeza, onde tomava um cappuccino e comia dois doces perfeitos e deliciosos, olhando as pessoas falarem, observando como se vestiam, como as mães tratavam as crianças, as pedras da calçada, a cara do barista (geralmente lindos rapazes ou moças), o modo como mexem as mãos, a maneira como fumam e bebem café, estava tão legal a mania, que engordei três quilos por conta dela. Tudo que é bom nessa vida, engorda, ou quase tudo. Parei de fazer todo dia, mas ao menos um dia da semana estarei lá, conhecendo todos os gostinhos dessa Itália. Até segunda!

Crostatas e outras guloseimas encantam olhos e paladar

Resistir, sempre!

Capuccino e friozinho do fim de tarde é coisa boa

Nas caminhadas, sempre encontro flores da primavera pelo caminho

Olha a pinta fashion dos jovens italianos

Primavera me enche de esperança