Esse ano de 2020 deu a todos algo importante para o crescimento espiritual: medo. O medo, tão recriminado nas frases feitas em contextos diversos nos leva a refletir e mudar de rumo em âmbitos diferentes da vida, tal qual árvore em busca do sol. Se você não teve medo de perder alguém que ama, vá buscar ajuda psiquiátrica. E esse medo de perder me guiou no sentido de buscar leituras que eu não tinha sobre caminhos possíveis a seguir, legados intelectuais deixados para a humanidade, teorias sobre formas de ver o mundo, a sociedade e sobre o modo como eu me vejo. Mas uma crônica é pouco para falar de tudo. Abordarei nesse segundo texto, de uma série de quatro, sobre o tema Mulheridades, a minha percepção sobre o modo como o mundo nos induz a acreditar que só existe o caminho do casamento para a felicidade.

Explico: as novelas brasileiras, na minha época, talvez tenham sido o primeiro contato externo com o amor romântico, casamento e família de comercial de margarina. Entre uma brincadeira e outra, vi meus pais vendo novelas e vi também muitas sessões da tarde. Hollywood, em suas produções, tal qual as novelas brasileiras, capricha nos contos de fada, nos casais perfeitos e tremendamente apaixonados. As histórias infantis sempre seguiram a mesma linha, nos enfiando goela abaixo princesas sempre em busca de príncipes salvadores. A música não fugiu do roteiro: encontrar o grande amor, casar-se e ter filhos sempre me pareceu o caminho natural de toda mulher.

Para minha sorte tive um pai e uma mãe que sempre destacaram o conhecimento como obrigatório para ‘ser alguém na vida’ e venho de uma família que, apesar de seguir o mesmo modelo patriarcal, é provida de mulheres fortes e independentes. Mais ainda: mulheres que nunca estiveram dispostas aceitar um homem qualquer só para ter alguém do lado e sentir-se realizada. Tenho tias, primas e uma irmã que seguiram o caminho da completude feminina por si só e assim levam a vida, sem depender de ser um casal para sentir-se bem ou ‘normal’. Educar meninas com a consciência de que a vida não gira em torno de encontrar o homem ideal para ser marido e pai dos seus filhos é essencial para uma sociedade mais equilibrada, justa e menos angustiada. Não existem garantias de que uma mulher solteira encontrará mais fontes de realização, entretanto, casada há nove anos, acho impossível tecer qualquer tipo de métrica do que é mais fácil ou difícil (qualquer vida que venhamos a levar neste planeta é sempre muito difícil), mas é preciso não doutrinar nossas garotas a enxergar um único caminho, é preciso fazê-las acreditar que a opção de nunca casar, nunca ter filhos é perfeitamente plausível e em consonância com a possibilidade de realização pessoal e vida plena.

O adoecimento a que me referi no texto anterior (ler aqui) tem forte relação com a imposição social de ter um par (fixo). “Ficar para titia” sempre nos atormentou desde os primeiros anos de adolescência. Lições sobre como se portar para atrair e ‘segurar’ um homem sempre foram pautas nas revistas femininas desde minha mais tenra memória. São poucas as referências de mulheres que brilharam sem um super ‘macho do lado’, esteja ele no papel de príncipe ou caçador que salva a chapeuzinho do lobo mau.

Fato é que, na prática, sempre estivemos rodeadas por elas: toda mulher conhece alguma outra mulher que simplesmente não se encaixa nesse perfil de esposa, mãe e muitas vezes se força a sê-lo, cansada de lidar com uma sociedade machista, na qual se ouve de ambos os sexos o quão importante é encontrar alguém.

É muito bom casar, ter filho, hoje é esse meu lugar de fala e não nego o quão desejei isso. Casei apaixonada, exigindo igreja, vestido branco, festa, lua de mel, casinha, animais de estimação e ser mãe. Tudo ocorreu no seu tempo, quase uma receita de bolo e talvez por isso eu tenha hoje a liberdade para dizer que esse é apenas um dos caminhos para a felicidade, não o único, não o mais correto, apenas mais um caminho.

Experiências solo de viagens, horas de estudo sem pausa, mudanças bruscas de planos, liberdade para decidir sozinha e pensando só no próprio bem estar, horas de filmes, livros e ou séries interruptas e tantas outras benesses de uma vida de solteira precisam ser retratadas pela publicidade, pelas revistas e pelas novelas do mesmo modo e com o mesmo peso que se dá ao amor romântico, pois sabemos que sobre o manto sagrado da família tradicional se esconde muita infelicidade. Desculpe, mas já não aceito sem um olhar crítico a frase “família acima de tudo”. Creio hoje na paz de espírito, no combate a todo tipo de violência doméstica, no cultivo da alegria genuína e do amor próprio como fonte importante para a sobrevivência sadia. Precisamos inclusive parar de arrumar crush ou marido para as amigas como se isso fosse um ato de bondade e digo quase como uma nota mental, visto que sempre fui muito boa em formar casais. A não ser que elas peçam, é preciso considerar que uma mulher pode ser muito feliz sozinha e mais ainda: que ela pode estar solteira sim e sozinha de fato, nunca, e tudo bem levar a vida assim, tudo bem se a noção de família dela girar em torno dos pais, irmãos tias, avô, avó, seja lá a formatação ideal ou não, construir uma família não necessariamente quer dizer casar-se.

E antes que pensem que estou separada (como ocorreu com tantos amigos nesse ano pandêmico) ou infeliz no casamento, adianto que, sabedora de tantas outras formas de estar bem com a vida, afirmo que manter-me casada tornou-se uma escolha consciente, uma opção e não um fardo ou uma obrigação.  Se o medo de perder alguém que amamos sempre estará presente em nossas vidas e precisamos aprender a lidar com ele (e essa pandemia fortaleceu essa ideia) se faz necessário amenizar o medo de não seguir caminhos previsíveis e impostos de modo autoritário, mesmo que essa autoridade haja nas entrelinhas de nossa vivência cotidiana. Precisamos falar sobre isso e abraçar outros modos, outros olhares sobre a existência feminina.