Moda masculina padrão Itália

Te proponho ler um texto em ritmo de pensamento. É assim:

Quando o calor chega na Itália, um frisson toma conta das pessoas. Todo mundo tira as roupas de manga e se produz como que para uma festa. Nunca tínhamos visto tanta gente na praça, tantas crianças. Aqui em Foggia o principal lugar de encontro da cidade é a praça Umberto Giordano, com bares, cafés, gelateria, estátuas, igrejinha católica. Luigi brinca e sobe nas estátuas interativas, faz amizades utilizando a linguagem do sorriso, essa comunicação mundial entre crianças e em três minutos ele interage pelo olhar e já está sendo perseguido por algum outro bambino fofo, uma graça.

Os italianos já respiram o clima de férias, que oficialmente começa em julho, mas na universidade já estão desacelerando desde o fim de maio e eu confesso que fiquei meio chocada com o ritmo lento do povo italiano, pois aqui cheguei querendo aprender, estudar, viver intensamente o ambiente acadêmico e eles estavam se preparando para o final do semestre, como se fosse outubro no Brasil. Participei das aulas da disciplina de Antropologia Aplicada, estive em dois seminários, porém, queria mais. Busquei cursos de arte, fotografia, cinema e nada, nadinha, tudo só começa em setembro por aqui, uma pena.

Para completar minha inquietação, a minha professora tutora, Francesca, me chamou para conversar início do mês, informando que precisaria se ausentar da cidade para tratamento de saúde. Ela é antropóloga e tem um interesse enorme por pesquisas relacionadas aos povos indígenas, fez PHD na Bolívia, com os índios guaranis e estávamos em uma troca de experiências interessante, eu com os Makuxi e Jaider Esbell (meu sujeito de pesquisa) e ela com todo know how de pesquisadora experiente estava elucidando diversas dúvidas, me propôs, assim que que cheguei em Foggia, organizarmos dois seminários locais para que eu pudesse apresentar meu trabalho, além de viagens à Siena e Milão, para encontro com outros pesquisadores italianos que trabalham com arte e literatura indígena brasileira, assim como eu.

Com a notícia do problema de saúde dela, todos os planos foram lamentavelmente adiados para o início do próximo semestre, em setembro, inclusive a exibição do vídeo Wazacá, feito em Roraima, por mim, em abril de 2018, com Jaider Esbell, com apoio da turma da Platô Filmes, que fez a versão em português e agora, recentemente, gentilmente legendou em italiano. Enfim, tudo em suspenso, fica o sentimento de inacabado e o desejo de melhoras para a professora, afinal, sem saúde, qualquer plano por mais nobre que seja, é mero coadjuvante. Fico na torcida também para que a Universidade de Foggia possa pagar minha passagem pra vir apresentar o trabalho, afinal, não tive bolsa da UFRR para estar aqui, tudo é financiado com recursos próprios e depois do contingenciamento nas verbas da educação superior no Brasil é que não vai rolar mesmo. Engoli as frustrações e sigo em frente, buscando novas oportunidades.

E falando em oportunidades, a segunda missão que nos trouxe a estas paragens foi concluída nesse dia 11 de junho, com sucesso. Essa missão, aliás, começou há dois anos, quando Reinaldo deu entrada no processo de cidadania italiana. A sentença saiu em um ano mais ou menos, tínhamos em mãos as certidões de nascimento dele, do Luigi, dos irmãos, da mãe dele e a minha (adquirida por já ser casada há mais de seis anos). Com esta certidão que atesta cidadania é que se pode tirar o passaporte italiano, mas acredite, nada é simples se pode ser burocrático aqui na Itália.

E sem saber, estávamos vindo para uma das cidades mais tradicionais na burocracia desmedida. Encontramos (ainda bem) mais gente disposta a ajudar do que a atrapalhar e nesses quatro meses, depois de muitas idas e vindas para tirar o códice fiscale (CPF) e a identidade italiana, conseguimos finalmente ter em mãos o passaporte grená. Talvez um dia eu conte mais detalhadamente essa saga para quem tem interesse em saber como funciona. A alegria de ter o passaporte em mãos é enorme, pois com ele se abre um leque de possibilidades no mundo. Mesmo já tendo como foco a Polônia, nunca se sabe o que a vida pode nos proporcionar.

Voltando ao tema lá do primeiro parágrafo: as mulheres italianas tem cabelos de fios grossos e gostam dele armado e ondulado, é perceptível o trabalho que devem ter antes de sair de casa, frisando as madeixas, se maquiando indefectivelmente e os homens não são diferentes no cuidado com a aparência. Barbas e cortes de cabelo impecáveis, camisas e calças sempre colados ao corpo, mesmo os que tem uma barriguinha evidente. Quase todo mundo usa calças curtas, é praticamente uma regra que as calças jeans, moletons, calças de alfaiataria sejam ‘pega marreco’. A paixão por sapatos é outra coisa de louco aqui. Não tem aquele par surradinho e confortável que a gente adora? Pois eles jogam fora e só usam sapatos novos, sem arranhaduras. Ou gastam muito dinheiro ou sabem conservar muito bem os calçados, pois estão sempre limpos e com aparência de novo.

Os homens são bem o clichê que falam dos italianos, tem a paquera como hábito. Eles olham para as mulheres, mesmo que ela esteja acompanhada, principalmente se for morena e com cabelos longos, que é o meu caso, e sim, isso alimenta levemente meu ego. Em verdade sinto-me a exótica, representante internacional da beleza amazônica rará! Eles não disfarçam que o diferente chama atenção e me olham, mesmo que eu esteja com filho e marido do lado, Reinaldo cansou de fazer cara feia e eles simplesmente nem ligam. É como se fosse uma condição de masculinidade italiana e tá tudo bem, não passa disso. Somente uma vez fui abordada em um café, mas nada demais, eu pedi licença, pois estava lendo, ele insistiu em ‘falar comigo’ ai mostrei minha aliança de casada e o cara pediu mil desculpas (que chato ter que mostrar que já tenho um homem na minha vida pra ele entender que não tô com saco pra ele).

Agora é hora da minha caminhada. Depois conto mais e obrigada por ter vindo até aqui.