Da minha janela vejo a torre da Parafia rzymskokatolicka Najświętszego Imienia Jezus

Experiências iguais podem ser percebidas, sentidas de maneira totalmente diferente por cada indivíduo. Por isso afirmo que em 2020, nos meus quase 37 anos de vida (completo em fevereiro) a melhor maneira de amar o Brasil nesse momento é estar longe dele. Já fiz até a playlist “Saudades do Brasil” no Spotify e tá a coisa mais linda, pois de música boa o país bamburra. É que música é sentimento e nós sentimos muito, tão passionais, tão intensos que somos. Gosto dessa coisa: ser gente amorosa, ter sido criada por gente amorosa, indiscreta, por vezes, mas especialmente sentimentais.

Passei a metade do ano de 2019 em Roraima, meu Estado no extremo Norte do Brasil, finalizando o mestrado. Mal cheguei à Polônia e já consigo estar nostálgica. Nostalgia, substantivo feminino que significa, segundo o Google, melancolia profunda causada pelo afastamento da terra natal ou distúrbios comportamentais e/ou sintomas somáticos provocados pelo afastamento do país natal, do seio da família e pelo anseio extremo de a eles retornar. Que dramático, esse Google. Ter raízes é ter referência e não dependência. Minha nostalgia é leve e totalmente suportável no momento, até porque tenho meus pequenos rancores do Brasil, mais especificamente pelo momento político em que vivemos, pelos atrasos na educação, perseguição aos intelectuais do país, aos cientistas, aos artistas, aos jornalistas, ou seja, tudo que sou ou estou me preparando para ser, tudo com o que tenho afinidade e admiração, tem sido depreciado, desvalorizado, estigmatizado.

O ser criativo, intuitivo, de alma livre e conectada com o todo, sabe procriar em solo infértil e é na dificuldade que brotam os projetos mais fodásticos, a arte mais resistente à ignorância, a doce natureza do improvável faz nascer coisas cheias de amor e beleza. Isso é bom, isso salva e sei que haverá sempre a resistência e a produção, mesmo em tempos ruins.

Mas eu me permiti viver outras dificuldades e gozar de outras benesses, tudo é bom e ruim ao mesmo tempo, mas o deslocar-se entre um país e outro tem a vantagem de sacudir o espírito e isso é raro de acontecer na vida. Passamos o tempo inteiro, desde o termino do ensino médio, calçando os pés no solo, como plantas, buscando segurança e paz e sendo o que esperam que sejamos, geralmente ‘alguém na vida’ e esse ‘alguém’ que nos tornamos por vezes não é exatamente o que sonhávamos secretamente ser.

Por vezes o que nos tornamos não tem legitimidade, não alimenta nossa alma de verdade. Sabe aquele desejo secreto? Aquela paixão por uma área profissional que “não dá dinheiro”? Aquele jeito simples de viver a vida, que te permite estar em harmonia e com frequência próximo à natureza? Pois é, as vezes a gente se perde e se distância de tudo isso, o trabalho que paga bem te consome as melhores energias, as necessidades materiais ilusórias não param de crescer e o brilho da vida vai se perdendo. Eu não queria deixar barato, porque viver nesse planeta é difícil e doloroso em boa parte do tempo e não quero deixar minha vida passar batido.

Se a oportunidade vem, eu me jogo, monto sem cela mesmo e saio agarrando em crinas, orelhas e até no vento, mas vou. Estou na Polônia,  país localizado no Leste Europeu, na costa do Mar Báltico, conhecido por sua arquitetura medieval e pela herança judaica. Estamos morando em uma cidadezinha chamada Lódz, distante uma hora da capital, Varsóvia. Com aproximadamente 700 mil habitantes, está em franco desenvolvimento. Da janela do apartamento alugado, no centro da cidade, vejo uma torre de igreja que me remete aos contos antigos europeus, com bruxas e velhas sabias que moram em florestas. Ela, a igreja, se chama Parafia rzymskokatolicka Najświętszego Imienia Jezus. O apartamento, todo mobiliado, é agradável, cheio de luminárias, algumas modernas, outras antigas, o chão é em madeira e a parede é decorada com pedras brancas brilhantes e fundo marrom.

É tudo muito diferente, mas muito agradável, principalmente pelo sol inca, igual ao que tínhamos na casa em Boa Vista. O sol já estava aqui e é igual ao que tínhamos escolhido para decorar nossa casa em Roraima.  Como eu sei que não existem coincidências, tínhamos que estar aqui, nesse lugar e como a vida é toda aprendizado e morte no final, alguma coisa vamos aprender.

Ontem fui ao shopping sozinha. Coloquei pacientemente as três camadas de roupa, touca, cachecol, luvas, botas. Caia uma chuva fininha quando coloquei o pé a rua. Pensei em voltar para o apartamento, mas cansada de ficar o dia todo em casa, fui. A noite estava agradável, apesar do chuvisco gelado, faziam 7°, quando o comum nessa época é fazer 0° ou menos que isso. Andei pelo shopping vagarosamente com cara de perdida, olhei vitrines para entender a moda das polonesas, as cores, os jeitos de ser sapato e mulher por aqui. Vi preços e gostei deles. A moeda polonesa se chama Złotys e custa R$ 1,05, bem diferente do Euro e a penosa conversão para o Real. As coisas são baratas e vivem na promoção. Sinto que pago o preço justo por tudo.

Quase todos os jovens e jovens adultos falam inglês. Os mais idosos só falam polonês. Eu me arrependo profundamente por não ter dado continuidade ao inglês, nas muitas vezes em que fui matriculada e que me matriculei em escolas. Estude inglês o mais breve possível! Em 2020, para poder almejar o doutorado por aqui, preciso vencer a barreira da língua, meu desafio para os próximos 343 dias, mas, como aprendo melhor na pressão, me lascando, vamos à luta.

No shopping, as lojistas me atendem com simpatia e paciência, metade com mímica e outra metade no meu inglês limitado e ficam felizes quando digo a única palavra que aprendi até agora em polonês: dzięki que quer dizer obrigada! Se pronuncia “diecuiê” e por hora é só o preciso dizer mesmo.

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